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17 novembro, 2016

O que aprendi ao estagiar no Diário de Notícias?


Há uns dias vi uma fotografia que foi partilhada na rede social Facebook e que me deixou, por alguns momentos, quieta, a pensar. Essa fotografia mostra parte da redação do jornal Diário de Notícias (DN) vazia. Quando digo vazia refiro-me a um vazio material. Não há secretárias onde elas costumavam estar, faltam os computadores e os telefones... mas as pessoas ainda estão lá. Os jornalistas, a essa data, cumpriam o último fim-de-semana de trabalho naquele edíficio. Soube há algum tempo que a redação do DN iria abandonar o emblemático prédio da Avenida da Liberdade, nº 266, e mudar-se para as Torres de Lisboa, onde o espaço será partilhado com a equipa da TSF, também pertencente à Global Media Group. Fiquei um tanto ou quanto espantada com a notícia. Não duvido que possa ser o melhor em termos de interacção entre equipas e em termos de rentabilização, mas na minha visão sobre esta mudança, e porque não a vivo em primeira pessoa, as memórias falam mais alto. Sempre associei o Diário de Notícias àquele edifício. Quem não? Quanta história, quanta importância... a fachada tão característica que podia ser vista por todos quanto passavam pelo Marquês de Pombal. Confortou-me o facto de saber que os novos proprietários do edifício o vão manter o mais fiel possível, a própria referência ao nome do jornal no topo da fachada, permanecerá. Como eu digo, é história. Antes de passar ao verdadeiro propósito deste post quero, ainda, referir, outro aspecto que me chamou a atenção na dita fotografia. Reconheci poucos. Passaram-se três anos desde o meu estágio no DN e vejo que, de lá para cá, muita coisa tem mudado. Soube que o meu editor (secção de Segurança), já enveredou por outra área, o sub-director Nuno Saraiva faz hoje parte do Gabinete de Comunicação do Sporting, entre outros casos. Surpreendeu-me olhar para a fotografia e reconhecer apenas alguns jornalistas do "meu tempo". 

Feito isto, e porque são algumas as memórias que guardo do DN, nº 266 da Avenida da Liberdade, resolvi escrever acerca do que aprendi a estagiar nesta redacção. 

Por vezes, o nosso trabalho vai para o lixo. Esta frase não é minha, foi-me dita pelo meu editor, na altura. Soube o seu significado da pior forma, mas depressa percebi que é algo normal e que pode acontecer a todos, não só a jovens estagiários. Numa manhã tinha sido enviada para o Cais do Sodré, mais propriamente para a estação de comboios onde tinha ocorrido um descarrilamento que estava a provocar atrasos. O objectivo era recolher testemunhos por parte dos passageiros e até dos funcionários. Fiz o meu trabalho, voltei para a redacção e escrevi o artigo, tendo em conta o espaço que tinha disponível para ele. Estava empolgada por ver um artigo meu nas páginas do DN. Contudo, no dia seguinte, quando abro o jornal, na própria redacção, não o encontro em lado algum. Questionei o meu editor e o mesmo respondeu-me com a frase que dá início a este tópico. Simples assim. Surgiu algo mais importante, entretanto, e o meu artigo teve de "cair". Se todo o trabalho foi em vão? Teoricamente, sim, porque só eu e o meu editor é que tivemos acesso aos dados que recolhi. Na prática foi mais uma oportunidade de sair da redacção ao encontro da notícia e de me aprimorar na escrita de notícias. 

Como funciona uma redacção. Neste aspecto, eu tinha uma ideia errada acerca do ambiente nas redacções. Pensava que os jornalistas eram pessoas muito sérias, e são, no desempenho do seu trabalho, mas descobri uma redacção muito familiar, com um ambiente de trabalho convidativo, bem-disposto, de entre-ajuda. A comunicação é constante, entre nós e com o exterior. Foi bastante pedagógico assistir a debates entre jornalistas sobre o imediatismo, sobre a confirmação com as fontes, sobre o melhor título para uma dada notícia. Aprende-se muito com a observação, acreditem. Fica-se a saber imenso sobre a rotina jornalística.

A importância de conhecer as fontes. A eterna relação entre o jornalista e as fontes! É mais difícil para um estagiário construir uma relação com as fontes em comparação com um jornalista que tem mais de dez anos de casa. As fontes conquistam-se ao longo do tempo através de confiança e da isenção do nosso trabalho. É muito importante saber que fontes contactar tendo em conta a natureza do acontecimento. Procurar fontes credíveis, saber confrontar os dois lados de uma história. Esta é a conjugação de uma notícia, se assim não for ela acabará por ter um carácter tendencioso. 

Há falsos alarmes. Um dia, tinham recebido de um leitor a informação de que havia um grande incêndio em Telheiras, um bairro de Lisboa. Segundo o leitor, haveria muito fumo e muita gente no local. A minha função era ligar para os Bombeiros Sapadores de Lisboa para confirmar a notícia e saber mais pormenores sobre o dito incêndio. Feito o contacto com os bombeiros, a resposta do outro lado foi de que não havia incêndio nenhum, nem em Telheiras, nem em Lisboa. Aqui está, a importância de confirmar a informação.

A enfrentar um desafio sozinha. Duas semanas antes do meu estágio terminar recebi um grande desafio: escrever um artigo sobre o uso indevido do telemóvel na condução. Esse artigo tinha uma data para estar pronto e eu comecei logo a trabalhar nele. Seleccionei as fontes que achei pertinentes, entre as quais a Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária (ANSR), a GNR, a PSP, bem como o presidente da Prevenção Rodoviária Portuguesa e a Associação de Cidadãos Automobilizados. Tive de esperar alguns dias para receber dados estatísticos por parte da ANSR e, entretanto, o meu editor ausentou-se da redacção durante três dias. Eu já tinha bastante informação, mas precisava de orientações, precisava de saber se estava a abordar o tema como devia, se a notícia tinha um fio condutor. Mas, de facto, eu não podia parar, mesmo sem ter um feedback, até porque o prazo de entrega já estava próximo. Então, decidi ir para a rua e falar com pessoas, condutores, ao mesmo tempo em que compilava algumas informações que estariam nas caixas adicionais da notícia. Resultado: correu tudo bem. O meu artigo foi aprovado pelo editor, foi publicado com o meu nome, ocupou a primeira página do jornal e ainda serviu de alavanca para que a notícia fosse divulgada, também, pelos jornais televisivos. Foi uma grande vitória pessoal e guardo essa edição do jornal religiosamente até hoje. Mesmo com contratempos, é possível. Muitas vezes é um teste à nossa capacidade de enfrentar as situações.


Conclusão. Durante os três meses enquanto aprendiz e estagiária no Diário de Notícias senti a satisfação que é sair da redacção para o terreno, aprendi a evitar chavões como “ilícitos criminais”, consegui “puxar” o que é notícia logo para o primeiro parágrafo do texto e tornou-se ainda mais claro que tudo o que se escreve em jornalismo deve ser sustentado por fontes credíveis e não por ideias do senso comum. 
Percebi que o jornalismo me preenche e me faz sentir realizada; que não há horários para os jornalistas; que o trabalho, na maior parte das vezes, é árduo; que as fontes são essenciais para todo e qualquer trabalho e que é necessário escolhê-las bem; que apesar de todos os condicionalismos da profissão há quase sempre o cuidado de cumprir o código deontológico. 
Apesar da redacção do DN ser um espelho da actualidade e todo o trabalho ser fruto de contactos com o exterior, eu considero a redacção como um mundo à parte. Um mundo onde os esforços se concentram no serviço público, onde a prioridade é informar com qualidade e “em tempo útil”. A redação é um mundo que eu tive a satisfação, não só de conhecer, como de pertencer durante três meses, e que abriu de uma forma espantosa os meus horizontes e a minha perspectiva sobre a profissão de jornalista. 

Fotografias: www.dn.pt

11 novembro, 2016

Leonard Cohen. Até ao fim do amor.



A música tem perdido grandes nomes. Acredito, contudo, que a obra é imortal. Continua ao nosso dispor, seja através dos discos que se têm em casa, dos vídeos que pudemos ir resgastar ao Youtube, seja das músicas que ainda passam na rádio. O músico morre, mas a música permanece viva, e as memórias também. Acontece-me isso com Leonard Cohen, que deixou ontem este mundo, quem sabe dançando, na direcção do amor

Dance Me To The End Of Love, foi a música que me lembro de ouvir vezes e vezes sem conta durante a minha infância. A minha mãe é fã do cantor, aprecia-lhe a voz grave, rouca, a forma lenta e pausada de cantar. Por isso, no Natal de 2002 ofereci-lhe o disco "The Essential Leornard Cohen". Assim, quando fazíamos as viagens para a escola e de regresso a casa era esse o CD que tocava no carro. Esses trajectos ficaram, curiosamente, associados a essa memória musical como se um não existisse sem o outro. É curioso o facto de, enquanto criança de 11 anos, gostar de ouvir esse género de música, mas a verdade é que não me recordo de pedir à minha mãe para mudar aquilo que estava a ouvir. Não direi que me tornei tão fã do cantor como a minha mãe, ou que continuei a acompanhar o seu trabalho depois dessa fase, mas ganhei um carinho por Cohen e pela sua música. Sempre que ouvia falar de Leonard Cohen era como se ouvisse falar de um velho amigo que outrora já me tinha acompanhado. Ele fê-lo, através das suas músicas. 

Leonard Cohen, também escritor e compositor, morreu aos 82 anos. Viveu uns escassos meses após a morte de Marianne, a sua musa inspiradora, que faleceu em finais de julho. Na altura, Cohen despediu-se dela através de uma carta emotiva, em que referia estar próximo de Marianne e onde dizia que brevemente se encontrariam pelo caminho.
Num dos seus últimos temas o poeta canadiano dizia-se pronto para morrer - "I'm ready, my Lord" - mas acrescentou, mais tarde, que estava a dramatizar e que pretendia viver para sempre. Decerto viverá. Até porque o amor não se esgota aqui.

Ainda tenho de contar a notícia à minha mãe.

Nota: Já lhe contei. A resposta foi: "era a voz da minha vida."

 

09 novembro, 2016

A piada ficou séria. Trump é Presidente.


A princípio achei a figura de Trump caricata. O facto de um homem com o seu perfil se estar a candidatar à Casa Branca era um acontecimento ao qual achava piada. Era uma espécie de bobo da corte. Em momento algum levei a sua candidatura a sério, não só por considerar Trump um megalómano, alguém com ideias muito loucas, mas devido a outros candidatos que, desde logo, me chamaram a atenção pela sua postura, ideais defendidos e credibilidade. Sempre acompanhei a corrida à Casa Branca como uma mera espectadora, ia ficando a par dos resultados e a par das barbaridades que este senhor Donald Trump cuspia. Era para mim difícil de acreditar no que ouvia, por vezes. As ideias xenófobas, a intenção de construir muros, de expulsar imigrantes, de humilhar pessoas com deficiência, a própria forma como encara as mulheres em pleno século XXI é de deixar qualquer pessoa abismada! 

É claro que nunca acreditei que os EUA o elegessem como presidente, na minha cabeça a sua progressão nas votações devia-se ao seu show business, as pessoas queriam ouvir as "trumpalhadas" que ele dizia aos media e rirem-se dele. Pelo menos, era o que eu fazia, era o que eu pensava. Repito: nunca pensei que o povo americano, com toda a informação e desenvolvimento de que hoje dispomos, fosse votar num homem destes. Estamos a falar de um povo que elegeu Barack Obama. O que mudou entretanto nos eleitores? Há quatro anos elegeram o primeiro presidente negro dos Estados Unidos da América, um homem sensato, humano, com valores morais; já hoje, dão o poder a um homem cheio de si, com ódios bem marcados, sem respeito pelas minorias, com ideias fora de série para o mundo actual. É inacreditável esta escolha do povo americano. 

Mas atenção, não me espanta o facto de Donald Trump ter conseguido uma legião tão numerosa de apoiantes. Ele sabe falar, sabe mexer com as vontades ocultas das pessoas, dá voz ao pensamento dos que são como ele. Essas pessoas vêem-se representadas. Trump é tudo menos politicamente correcto. Soube cativar as pessoas menos instruídas e deu-lhes a volta com o seu discurso "Make American Great Again". Tenho de dizer isto, mas sempre que ouvia Donald Trump discursar e arrastar multidões para as barbaridades que dizia, lembrava-me de Hitler. Toda aquela lavagem cerebral, o recurso à manipulação, ao ódio gratuito. É de arrepiar, mas esta associação é bem real para mim. Cheguei a acreditar que ele não pretendia ser eleito, que tinha entrado na corrida para se auto-promover e que, entretanto, as coisas se tinham desenrolado melhor do que Trump alguma vez esperara. Será que o próprio acreditou desde o início que conseguiria tornar-se presidente dos EUA?

Hoje o mundo acordou em choque. Não só a América, mas o mundo. A nós, resta-nos esperar para ver o seu discurso, a sua posição face aos acontecimentos futuros, as medidas que tomará. No discurso de vitória o republicano afirmou que será presidente de todos os americanos e que quer promover a união. Vamos esperar. Mas uma coisa é certa: não sinto que a América - ou que o mundo - esteja bem entregue.

22 março, 2016

O despertar de Bruxelas para os atentados

É muita poeira para um mundo que deveria ser de luz.

Aconteceu outra vez. Está a acontecer com demasiada frequência. Hoje foi a vez de Bruxelas, considerada o coração da União Europeia. A cidade despertou com o rebentar de bombas, o aeroporto e o metro foram os alvos escolhidos para mais um atentado terrorista. É isto que me assusta: ser "mais um" a somar a tantos outros que têm sido perpetrados , em maior ou menor escala. É inevitável pensar na segurança dos cidadãos europeus. O número de vítimas mortais já ultrapassa as três dezenas e mais de 200 pessoas ficaram feridas. Estamos a falar de inocentes, do cidadão comum que está a dirigir-se para o trabalho, que vai viajar, que está a regressar a casa. Pessoas com uma rotina como a minha, como a nossa, que é brutalmente interrompida pelas ideologias e actos macabros de um grupo terrorista. 

Imagem retirada do Twitter
Os ataques já foram reivindicados pelo auto-proclamado Estado Islâmico, o mesmo autor dos atentados de Paris no ano passado e mais vulgarmente conhecido por Daesh. O Daesh quer espalhar o terror no Ocidente e usa-se de uma religião estrategicamente modificada para justificar as suas acções. São bárbaros e começam a ganhar terreno, estão a conseguir ferir-nos. Na altura do atentado de Paris, em novembro, procurei informar-me acerca deste grupo e fiquei horrorizada. A frieza, a crença cega, o radicalismo, o planeamento, a retaliação, os recrutamentos, a tortura aos prisioneiros. 

Nos noticiários fala-se de uma ameaça global, o que significa que qualquer país, qualquer pessoa, pode vir a ser atingida por acontecimentos desta natureza. Isto obriga-nos a pensar seriamente na questão da liberdade e da segurança. O clima de incerteza e insegurança está a instalar-se aos poucos, nomeadamente nas grandes capitais e em locais onde existem grandes aglomerados de pessoas. O plano e atuação dos terroristas são estratégicos. Há várias mensagens subliminares. Hoje, em Bruxelas, atacaram a estação de metro mais próxima das instituições europeias, o que pode simbolizar um aviso/ameaça aos mais altos dirigentes e chefes de estado. Em Paris, o alvo foi o modo de vida ocidental, a nossa cultura e formas de divertimento. Além disso, parece existir uma relação causa-efeito. Há uma espécie de retaliação. Os atentados ao Bataclan (Paris) ocorreram depois do assassinato de Jihad John (carrasco do Daesh) e, agora,  quando a Bélgica e a Europa respiravam de alívio após a captura de Salah Abdeslam, o pior acontece. 

18 março, 2016

Migração para o digital: um jornalismo mais económico


Os problemas de financiamento, a falta de investidores e a crescente era digital estão a obrigar os jornais a restringirem-se ao online. Exemplos disso são o jornal espanhol El País, que está a apostar numa transformação digital, e o Diário Económico, que publicou hoje a sua última versão em papel. As dívidas, o atraso nos pagamentos e a instabilidade directiva conduziram a este desfecho. A partir de hoje, o jornal  pertencente à Ongoing fica restrito à sua edição online, mantendo, ainda, as emissões do canal ETV. Fundado em 1989, o Diário Económico passou por fases de crescimento, e é considerado um jornal de referência em Portugal.

No site, assim como na versão impressa, pode ler-se uma mensagem de agradecimento dirigida aos trabalhadores, leitores e anunciantes, e a esperança de que esta seja uma situação temporária. 
Muitos são os funcionários que continuam a assegurar o conteúdo jornalístico e editorial do projeto apesar da situação precária em que se encontram. Aproveito para fazer referência à publicação de um vídeo que retrata a rotina na redação: as reuniões, a escrita dos artigos, a definição da manchete e a impressão do jornal, que hoje cessa. Como licenciada em Jornalismo, e enquanto cidadã atenta, sinto a informação mais empobrecida com estes acontecimentos. Trata-se de um retrocesso causado pelo progresso. É praticamente uma perda, uma extinção parcial. Para mim, é grave. Não só a situação financeira em que o jornal se encontra como a possibilidade de mais publicações lhe seguirem os passos em situações semelhantes. São muitos os jornais que enfrentam estas dificuldades, este não é um caso isolado. Estamos a assistir a uma mudança de interesses e este é um sector cada vez mais concorrencial. A internet, apesar de não ser a vilã neste caso, está a criar novos hábitos e a conseguir alcançar mais leitores. Considero notável a faceta camaleónica dos media, a adaptação ao mercado emergente das redes sociais e da tecnologia. Por outro lado, também a publicidade, uma das maiores receitas dos jornais, está a dispersar para plataformas mais "populosas" e a criar o seu próprio espaço, independente. 

Tendo em linha de conta este caso, espero sinceramente que não se abandone um modo de informar tão tradicional como o jornalismo de imprensa. O cheiro do jornal, as páginas, o próprio folhear... Até que ponto não está a ser exponencialmente substituído pelos cliques e pelos ecrãs? A tendência é o digital, e não censuro. Acho a internet um mundo sem limites, com grande capacidade  de projecção e visibilidade. Mas admito que temo o dia em que haja uma migração total para estas plataformas. Espero um futuro em que os leitores mantenham a possibilidade de escolha, em que a pluralidade seja assegurada e acessível a todos.

O Diário Económico é líder de vendas no segmento de Economia e o site economico.sapo.pt recebeu, só em janeiro, mais de 7 milhões de visualizações.

24 fevereiro, 2016

Zuckerberg e a nossa cegueira

Nem de propósito. O tema que abordei no último post (Tecnologia à Mesa) está, realmente, a ganhar contornos de outras dimensões.

Tudo começou no Mobile World Congress 2016, que decorreu no passado domingo, em Barcelona.
Mark Zuckerberg, conhecido fundador e CEO da rede social Facebook, fez uma aparição surpresa na Conferência da Samsung para falar acerca dos novos smartphones e gagets da marca. Até aqui, tudo normal. A questão é que o empresário norte-americano passou despercebido por entre a plateia, como se tivesse vestido o manto da invisibilidade de Harry Potter. Estranho?

Isso foi o que acharam os internautas ao verem esta fotografia, publicada pelo próprio Zuckerberg no seu perfil de Facebook. A imagem conta já com milhares de partilhas e está a lançar uma acesa discussão acerca do futuro da humanidade, numa era crescente em tecnologias.


A plateia estava a testar publicamente a câmara Gear 360 da Samsung, que no fundo são uns óculos de realidade virtual. Os jornalistas também participavam desse teste e estavam de tal forma alienados que ignoraram a passagem de Mark Zuckerberg, que parece ser a única pessoa lúcida na imagem. Só quando retiraram o aparelho é que se aperceberam de que o CEO estava na sala e começaram a disparar as habituais perguntas.

Mark Zuckerberg considera que estes aparelhos poderão permitir a criação de uma nova plataforma social, tendo como base a tecnologia de realidade virtual. O que nos remete a uma antevisão do futuro que muitos consideram "arrepiante".


Muitas comparações surgiram entre este acontecimento e o famoso filme Matrix, em que as pessoas são usadas e controladas através da tecnologia e lutam para se livrar do domínio das máquinas, numa era de Inteligência Artificial. A distância entre a ficção e a realidade parece estar a diminuir e há quem considere que este é apenas o prenúncio do futuro. As reacções gerais são de espanto e incredulidade, de um certo receio. Até que ponto tudo isto se poderá tornar numa tenebrosa realidade daqui a cinquenta anos? Não se está apenas a testar tecnologia avançada, os paradigmas estão a ser invertidos. Está a crescer uma dependência humana para com softwares eletrónicos, e surge a questão: usamos as máquinas ou estamos a ser usados por elas?

As questões surgem incessantemente e teme-se o retrato de uma sociedade isolada, incapacitada de pensar, embrenhada na ilusão de um mundo virtual, esquecida do seu papel na sociedade e à mercê dos grandes líderes.

«Eu temo o dia em que a tecnologia ultrapasse a interação humana.
O mundo terá uma geração de idiotas.»
 Albert Einstein.

22 fevereiro, 2016

Tecnologia à mesa: Garfo, faca, e telemóvel

Para além da sobremesa, que em muitos casos se torna dispensável pelas calorias extra, estamos também a incluir nas nossas refeições algo que não é muito recomendável: a tecnologia! De acordo com um estudo da Marktest sobre os hábitos à refeição, estima-se que 81% dos inquiridos reconhecem que a utilização de aparelhos tecnológicos prejudica as relações interpessoais. Contudo, 70% admitem fazer uso do telemóvel durante as refeições.

phys.org

O estudo foi recentemente divulgado nos meios de comunicação social e só veio confirmar, em números, uma situação recorrente que está à vista de todos. Quero partilhar convosco uma cena (pouco) familiar a que assisti e que me fez pensar. 
Fui jantar a uma pizzaria, há cerca de uma semana, para comemorar o dia dos namorados. Não será o melhor menu para quem deseja emagrecer, e nem o mais requintado, mas era o que me apetecia! A pequena sala estava cheia e, ao meu lado, estava uma família esfomeada: um casal e os seus dois filhos. Eram espanhóis, percebi logo pela pronúncia, apesar de pouco terem falado.
Eu tive de esperar meia-hora até que a minha pizza familiar (metade frango e natas/metade tropical), estivesse pronta. E, nesse espaço de tempo, pude conversar e observar.
Comecei por invejar o banquete que chegava à mesa do lado: duas pizzas familiares, seguidas de batatas fritas com ketchup e, para finalizar, um cestinho de pão. E eu, nessa altura, ainda com o estômago vazio. 
Depois, - chegou agora a parte importante -, vi as crianças, que não deviam ter mais de 10 anos, a pegarem nos seus tablets, um para cada uma, e a verem vídeos no dito aparelho. 

Confesso, fiquei estupefacta. Os miúdos não esperaram sequer pelo fim da refeição, que até era apetitosa, para se agarrarem ao tablet. Nada disso. Cada um olhava para o ecrã enquanto iam comendo a pizza ou tirando uma batata com a mão. Os pais comiam e lá diziam alguma coisa entre si, mas espantou-me o facto de não falarem com os filhos, que estavam mesmo ali à frente. Não havia uma coesão familiar naquele momento, era cada um para seu lado, com os seus interesses. E, apesar de ser algo comum nos dias de hoje, achei estranho. Senti-me incomodada. E depressa percebi por quê.


Eu faço o mesmo. Gostava de dizer que sou um bom exemplo, que não faço parte dos tais 70% referidos no estudo, mas infelizmente faço. Eu própria, em cafés e restaurantes, procuro sempre a senha para o WiFi. E acho que foi isso que me chocou. Quando olhei para a refeição daquela família e para o comportamento, totalmente alheio, das crianças, pude ver-me retratada, de certa forma. Dizem que a nossa percepção se torna diferente quando nos vemos a nós próprios. Neste caso, não tenho nenhuma câmara em casa para me poder analisar, mas tenho a capacidade de observar os outros e de me rever, ou não, nos seus comportamentos.

É frequente mexer no telemóvel durante as refeições. E não me orgulho muito de reconhecer isto. A minha mãe costuma chatear-se comigo e chamar-me a atenção. Diz que está a falar para mim e que eu nem a oiço, ou então que não lhe respondo. Shame on me. A verdade é que, sem nos apercebermos, este mundo virtual nos suga. Parece que o tempo é sempre pouco para se ver as notificações do facebook, as fotos novas que publicaram no instagram, para assistir aos vídeos do youtube, para responder a uma mensagem do nosso melhor amigo. Parece que não dá para deixar isto para mais tarde, como se depois da hora do jantar todas essas atualizações já não estivessem ao nosso alcance. Claro que vão estar disponíveis! Mas parece que preferimos focar a atenção nisso a passar tempo de qualidade com os nossos.

Isto é algo extremamente preocupante. E, ao contrário do que se possa pensar, não é um problema só dos jovens. Os mais velhos, que em grande parte também já se renderam às tecnologias, comportam-se da mesma forma. Não digo que o façam às refeições, porque ainda associam esse momento a um ambiente de reunião familiar, mas quando estão na sala também parecem descartar o convívio e abraçar os computadores e televisões. 


Dou por mim a pensar em como seria a comunicação e as relações há sessenta anos atrás, durante a juventude dos meus avós. A tecnologia trouxe-nos, de forma inegável, diversos benefícios, mas há que ter consciência da forma abusiva com que a estamos a utilizar. Estamos a trazer máquinas para as nossas mesas. Estamos a perder o contacto com as pessoas. Estamos, a pouco e pouco, a perder a voz quando vamos ao café com os amigos, porque preferimos conferir o que se passa online. Não é assustador?

Há pessoas que, para se livrarem deste vício que vai minando relações, estipulam dias da semana para estarem totalmente off. Nada de tecnologias, nada de ecrãs, nada de redes sociais nem jogos online. Realidade, sê bem-vinda! Também sei de casos em que se banem os aparelhos electrónicos durante as refeições, e concordo plenamente com isso. Aliás, ando a esforçar-me para fazer o mesmo. O importante nesta vida são as pessoas e não há tecnologia que as substitua. Portanto, que saibamos fazer uma gestão do nosso tempo, das nossas práticas, e interiorizar que há um horário para o mundo virtual e outro, distinto, para as pessoas. Que não haja deturpações. Porque são as pessoas que nos amam. Porque são as pessoas que nós amamos. 

10 fevereiro, 2016

Estudantes a tempo inteiro: Mais escola, menos família

TRRRIMMM! Hora da saída.

Quem é que não gostava de ouvir o toque da campainha? Nas escolas, era um som aguardado por todos, tornando-se quase num símbolo de liberdade para alunos e professores. (Sim, não adianta levar o assunto só para o lado das crianças!)


De acordo com a imprensa, o Ministério da Educação quer aumentar a carga horária escolar e está a estudar a possibilidade de os alunos até ao 9º ano terem aulas o dia inteiro. O intuito é ocupar os jovens com conteúdos extracurriculares e, ao mesmo tempo, conciliar o horário de saída dos alunos com os dos pais. Há quem aplauda a medida, que a ser aprovada só entrará em vigor em 2019, e há quem levante a voz contra a mais recente ideia do Governo. 

Enquanto alguns pais pensam que vão começar a poupar no ATL - que pela lógica já não será necessário, outros ficam preocupados com o pouco tempo livre dos filhos para a família e outras atividades.

A medida apresentada poderá ser uma esperança para os docentes em situação de desemprego, alega-se, já que será necessária a contratação de mais professores e funcionários.
A avançar, é uma decisão que acarreta um grande investimento. E, para já, não se sabe até que ponto os encarregados de educação e as câmaras municipais não terão de contribuir financeiramente para este aumento da carga horária.

Agora, vamos voltar atrás:


Se a memória não me falha, visto que já se passaram uns doze anos, eu costumava sair das aulas muito antes das 18 horas. Arrumava os livros na mochila à pressa e, quando não ia logo para casa, ficava com os meus amigos. Era comum irmos até uma lojinha para comprar gomas ou ir à loja das sandes comer um cachorro quente. Outras vezes o programa era ir até ao jardim passear, brincar no coreto e nos repuxos, ou simplesmente ver montras de lojas. Costumava regressar a casa de autocarro, o que, parecendo que não, sempre me dava alguma autonomia. E, quando o perdia, não havia problema... tinha sempre companhia enquanto fazia o caminho a pé até casa. Tinha tempo e podia usá-lo como quisesse. E não foi por isso que enveredei por maus caminhos.

Depois fui crescendo, e tive de trocar estes doces momentos por umas horas semanais na explicação de matemática. (Já nessa altura estava mais do que comprovado que a minha paixão não eram os números). E assim o tempo começou a ser distribuído de uma maneira diferente, e eu tomava consciência que o meu dia girava, quase completamente, em torno da escola.

Na verdade todos sabemos que, mesmo depois do toque da campainha, há muito trabalho a ser feito em casa. Os alunos têm os polémicos TPC's, explicações a uma ou mais disciplinas, apresentações para preparar, centenas de páginas para estudar...


Já os professores, diga-se, também não têm vida fácil. Ensinar é um privilégio, mas pode ser, igualmente, uma profissão ingrata. As aulas têm de ser preparadas, há fichas e testes para corrigir, reuniões de departamento, avaliações intercalares, atas para entregar... E muitas vezes leccionam longe da área de residência e têm fazer deslocações ou alugar casa no sítio onde foram colocados. 

Mas o maior desafio é, sem dúvida, lidar com crianças e jovens que tantas vezes têm défices de atenção, são problemáticos ou têm dificuldades de aprendizagem. Quão difícil pode ser captar o interesse de jovens que, hoje, só tomam atenção ao tablet e ao telemóvel? Quantas vezes o professor não sairá da escola esgotado pelas tentativas de disciplinar a turma, de manter a ordem e, até, de conseguir silêncio?!


A ideia que pretendo transmitir é a de que todos precisamos de tempo nas nossas vidas. É preciso que haja um tempo para se ser criança, como eu fui. É preciso que haja um tempo para brincar com os colegas e vizinhos. Tempo para estar em casa com os pais e brigar com os irmãos. Tempo para se conversar e ver televisão. Tempo para respirar e para se ter vida para lá das obrigações diárias. Tempo para que o crescimento possa ser de qualidade. 
Equilíbrio, meus senhores! É o essencial.

Esta é uma questão transversal. Há que haver, igualmente, liberdade para os próprios professores. Que também têm família, também são pais. E que, muitas vezes, passam mais tempo com os filhos dos outros, do que com os seus próprios.

Estas perspectivas do Governo, a avançarem, só vão acentuar de uma forma abismal uma lacuna já existente na vida de alunos e professores. 

31 janeiro, 2016

Brinquedos reais

Quando se fala em Barbie vem-nos à cabeça, automaticamente, a imagem de uma boneca loira, alta e de cintura fina. Desde 1959, data da sua criação, que assim é. Foi-se modernizando com o passar dos anos, mas estas características sempre lhe foram fortemente associadas. Até esta semana. 
Pois é. A Mattel decidiu, e bem, expandir a imagem-padrão da Barbie. Assim, apresenta-nos uma gama variada de bonecas com as quais qualquer criança (e adulto) se pode identificar. 
Surge uma boneca que representa de uma forma mais fiel o que são os corpos reais. 


Como se pode ver na imagem, surge uma boneca de estatura mais baixa do que a da Barbie original e, de seguida, uma bem mais alta. Na minha opinião, a que mais vem revolucionar é a terceira, que apresenta um corpo cheio de curvas, com o quadril largo ao estilo Kim Kardashian, e as pernas mais cheias. 

A Barbie é uma boneca para crianças, apesar de existirem muitos adultos que as coleccionam. Mas as crianças e a sua percepção são o alvo principal nesta conversa. Os mais pequenos são altamente influenciados por aquilo que observam. Para quê limitá-los, de certa forma, a um só biótipo? Quando fora do mundo dos brinquedos existem pessoas com características tão diferentes entre si? É importante ensinar logo na infância que as diferenças existem e que são algo natural. Claro que a criação desta três bonecas não vai evitar os estereótipos que já estão tão enraizados na sociedade, mas demonstram que a mentalidade das grandes marcas/empresas está a mudar. E isso é um ponto positivo. 

A par disso, e de forma a complementar este mesmo assunto, a Lego lançou esta semana o seu primeiro boneco portador de deficiência. Mais especificamente, trata-se de uma figura em cadeira de rodas, que simboliza as mais de 150 milhões de crianças a nível mundial com alguma deficiência. Com estes dois lançamentos acredito que as crianças se vão identificar mais facilmente com os seus brinquedos e ficar mais receptivas à diferença, que a todos nos caracteriza. Está lançada a semente que promove a aceitação. Não só a aceitação do outro, como a auto-aceitação do nosso corpo e de quem somos.

27 janeiro, 2016

Em Roma, sê iraniano...?

Ao que parece o Presidente Iraniano, de nome Hassan Rouhani, está a fazer a sua primeira visita oficial à Europa. E já deu que falar na imprensa e redes sociais. Tudo porque, em Roma, e numa visita aos Museus Capitolinos, as estátuas de mulheres nuas foram tapadas com painéis. Muitos estarão a pensar qual a finalidade de se ocultar este património centenário, quando é exactamente pela sua cultura que Itália é eleita, tantas vezes, como destino. A justificação para esta atitude, tomada pelo primeiro-ministro italiano, Matteo Renzi, está em não causar constrangimentos ou ofensas ao presidente iraniano. 
Certo é que já choveram críticas por parte do povo italiano e da oposição partidária de Renzi. E, no geral, um pouco por todo o lado são visíveis comentários a esta "submissão europeia".


Foto: AFP 2016/Filippo Monteforte
Foto: Giuseppe Lami/ANSA/AP

Vejamos. É importante existir uma relação de respeito entre líderes de diferentes países? Claramente
que sim. Acho de louvar a boa comunicação e o  respeito por diferentes culturas e ideais. Hassan Rouhani veio a Itália para fechar negócios de vários milhões de euros, mas para isso não é preciso que Renzi "venda" também a identidade cultural de um país. 

Compreendo que o ADN da Europa Ocidental e do Médio Oriente seja completamente diferente, contudo penso que é inadmissível, nos dias de hoje, a anulação da nossa história para que não se firam susceptibilidades de terceiros! Deve existir tolerância e respeito. Mas esse respeito deve ser mútuo. Qualquer estrangeiro que se desloque ao Oriente está sujeito às regras e à cultura que por lá imperam. Se alguém nos visita (refiro-me à Europa) por que motivo não aceita igualmente a nossa arte, os nossos costumes?

No final de contas estamos a falar de História. De um património do qual sentimos orgulho e que jamais deveria ser escondido desta ou de outra forma. 
Só posso afirmar que a cultura é a identidade de um povo. E eu, sinceramente, não gostava de ver seja que povo for a vergar-se ou a moldar-se aos seus visitantes.