14 novembro, 2016

A Super Desigualdade da Lua

foto: Kai Pfaffenbach/reuters - Alemanha

Às vezes, a vida, é semelhante à lua de hoje. Espera-se algo grandioso, radiante, fora do comum, extremamente peculiar, e depois vê-se o mesmo de sempre. O tamanho é quase o mesmo que o habitual, sem grandes realces. Pelo menos foi assim que eu a achei. Serão os meus olhos? Não terei olhado tempo suficiente? Foi no horário errado? É que, quem veja as fotografias divulgadas pela internet, eu incluída, fica maravilhado com tal contorno, nitidez, com a proximidade. Será a lua como a vida? Cheia para uns, um ponto distante para outros? 

A questão nem é a lua. É bela todos os dias. 

Isto vai mesmo directo para a etiqueta de Introspecção...

11 novembro, 2016

Leonard Cohen. Até ao fim do amor.



A música tem perdido grandes nomes. Acredito, contudo, que a obra é imortal. Continua ao nosso dispor, seja através dos discos que se têm em casa, dos vídeos que pudemos ir resgastar ao Youtube, seja das músicas que ainda passam na rádio. O músico morre, mas a música permanece viva, e as memórias também. Acontece-me isso com Leonard Cohen, que deixou ontem este mundo, quem sabe dançando, na direcção do amor

Dance Me To The End Of Love, foi a música que me lembro de ouvir vezes e vezes sem conta durante a minha infância. A minha mãe é fã do cantor, aprecia-lhe a voz grave, rouca, a forma lenta e pausada de cantar. Por isso, no Natal de 2002 ofereci-lhe o disco "The Essential Leornard Cohen". Assim, quando fazíamos as viagens para a escola e de regresso a casa era esse o CD que tocava no carro. Esses trajectos ficaram, curiosamente, associados a essa memória musical como se um não existisse sem o outro. É curioso o facto de, enquanto criança de 11 anos, gostar de ouvir esse género de música, mas a verdade é que não me recordo de pedir à minha mãe para mudar aquilo que estava a ouvir. Não direi que me tornei tão fã do cantor como a minha mãe, ou que continuei a acompanhar o seu trabalho depois dessa fase, mas ganhei um carinho por Cohen e pela sua música. Sempre que ouvia falar de Leonard Cohen era como se ouvisse falar de um velho amigo que outrora já me tinha acompanhado. Ele fê-lo, através das suas músicas. 

Leonard Cohen, também escritor e compositor, morreu aos 82 anos. Viveu uns escassos meses após a morte de Marianne, a sua musa inspiradora, que faleceu em finais de julho. Na altura, Cohen despediu-se dela através de uma carta emotiva, em que referia estar próximo de Marianne e onde dizia que brevemente se encontrariam pelo caminho.
Num dos seus últimos temas o poeta canadiano dizia-se pronto para morrer - "I'm ready, my Lord" - mas acrescentou, mais tarde, que estava a dramatizar e que pretendia viver para sempre. Decerto viverá. Até porque o amor não se esgota aqui.

Ainda tenho de contar a notícia à minha mãe.

Nota: Já lhe contei. A resposta foi: "era a voz da minha vida."

 

09 novembro, 2016

A piada ficou séria. Trump é Presidente.


A princípio achei a figura de Trump caricata. O facto de um homem com o seu perfil se estar a candidatar à Casa Branca era um acontecimento ao qual achava piada. Era uma espécie de bobo da corte. Em momento algum levei a sua candidatura a sério, não só por considerar Trump um megalómano, alguém com ideias muito loucas, mas devido a outros candidatos que, desde logo, me chamaram a atenção pela sua postura, ideais defendidos e credibilidade. Sempre acompanhei a corrida à Casa Branca como uma mera espectadora, ia ficando a par dos resultados e a par das barbaridades que este senhor Donald Trump cuspia. Era para mim difícil de acreditar no que ouvia, por vezes. As ideias xenófobas, a intenção de construir muros, de expulsar imigrantes, de humilhar pessoas com deficiência, a própria forma como encara as mulheres em pleno século XXI é de deixar qualquer pessoa abismada! 

É claro que nunca acreditei que os EUA o elegessem como presidente, na minha cabeça a sua progressão nas votações devia-se ao seu show business, as pessoas queriam ouvir as "trumpalhadas" que ele dizia aos media e rirem-se dele. Pelo menos, era o que eu fazia, era o que eu pensava. Repito: nunca pensei que o povo americano, com toda a informação e desenvolvimento de que hoje dispomos, fosse votar num homem destes. Estamos a falar de um povo que elegeu Barack Obama. O que mudou entretanto nos eleitores? Há quatro anos elegeram o primeiro presidente negro dos Estados Unidos da América, um homem sensato, humano, com valores morais; já hoje, dão o poder a um homem cheio de si, com ódios bem marcados, sem respeito pelas minorias, com ideias fora de série para o mundo actual. É inacreditável esta escolha do povo americano. 

Mas atenção, não me espanta o facto de Donald Trump ter conseguido uma legião tão numerosa de apoiantes. Ele sabe falar, sabe mexer com as vontades ocultas das pessoas, dá voz ao pensamento dos que são como ele. Essas pessoas vêem-se representadas. Trump é tudo menos politicamente correcto. Soube cativar as pessoas menos instruídas e deu-lhes a volta com o seu discurso "Make American Great Again". Tenho de dizer isto, mas sempre que ouvia Donald Trump discursar e arrastar multidões para as barbaridades que dizia, lembrava-me de Hitler. Toda aquela lavagem cerebral, o recurso à manipulação, ao ódio gratuito. É de arrepiar, mas esta associação é bem real para mim. Cheguei a acreditar que ele não pretendia ser eleito, que tinha entrado na corrida para se auto-promover e que, entretanto, as coisas se tinham desenrolado melhor do que Trump alguma vez esperara. Será que o próprio acreditou desde o início que conseguiria tornar-se presidente dos EUA?

Hoje o mundo acordou em choque. Não só a América, mas o mundo. A nós, resta-nos esperar para ver o seu discurso, a sua posição face aos acontecimentos futuros, as medidas que tomará. No discurso de vitória o republicano afirmou que será presidente de todos os americanos e que quer promover a união. Vamos esperar. Mas uma coisa é certa: não sinto que a América - ou que o mundo - esteja bem entregue.